Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury – Episódio 5

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta, conto on fevereiro 4th, 2009 by jmtrevisan

Uhu!

Em tempo recorde, aqui vai mais um episódio de As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury! É engraçado, porque a idéia deste capítulo e – principalmente – a imagem do personagem que aparece nesta parte da história, tem estado fixa na minha cabeça há quase um ano. Colocar tudo isso para fora dá uma sensação de alívio que vocês não tem idéia. O melhor é que o episódio 6 vai ser baseado em uma idéia ainda mais antiga.

Para quem não tem a menor idéia do que estou falando, “As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury” é uma série em capítulos sem periodicidade definida (por enquanto), ambientada em Arton, o mundo do RPG Tormenta.

Para ler os capítulos anteriores, basta clicar no link correspondente

- Capítulos 1 e 2
- Capítulo 3
- Capítulo 4
- Sketchbook


As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury

Episódio 5

Dessa vez não sei o que aconteceu. Mas não foi como quando entrei na arca, disso tenho certeza. Nada de sensação de estar caindo. Nada de luzes. Nada de nada, para falar a verdade. Acho que o que aconteceu quando entrei no caldeirão foi que apaguei.

Acordar foi uma experiência gradual. Primeiro um zunido bem lá no fundo. Depois a percepção de estar deitado, a sensação de gotas caindo na minha cara e finalmente a constatação de que estava deitado na grama à beira de uma estrada de terra enlameada. A colher de ferro firme na mão direita e o medalhão vagabundo pendurado no pescoço. E na chuva.

Onde em Arton, exatamente? Ótima pergunta.Não havia nenhuma placa indicando qualquer direção ou local. Nem casas por perto. Também não vi plantações ou bichos correndo pra lá e pra cá.

A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi algo que ouvi uma vez em uma conversa do meu pai com um taverneiro em Altrim: se você se vê sozinho em uma estrada desconhecida, é só uma questão de tempo até que meia dúzia de monstros bizarros apareçam literalmente do nada para te atacar, roubar, destroçar e mais uma porção de coisas desaconselháveis para qualquer pessoa que pretenda ter uma vida longa e saudável. É como uma daquelas leis místicas ou divinas que regem o mundo e foram criadas sabe-se lá por que ou por quem.

Como tudo que é criado em Arton sem motivo ou finalidade é coisa de Nimb, fechei os olhos por um instante e rezei – ou melhor, implorei – para que o Deus do Caos, da Sorte e do Azar mantivesse seus monstros longe da minha jovem carcaça. E deu certo. Para a minha felicidade e desapontamento de quem ouve essa parte da história, nada de mais emocionante aconteceu. Não naquele exato momento, pelo menos.

Só a chuva apertou ainda mais – e talvez eu pudesse ter evitado que isso acontecesse se tivesse dedicado um pouquinho da minha reza a Allihanna, Deusa da Natureza – mas a verdade é que naquela altura do campeonato já não fazia mais diferença mesmo. Minhas roupas já estavam mais do que ensopadas. E o pior é que eu tinha fome. E além da fome, meu corpo doía.

O fato é que no meio do tamborilar dos pingos caindo nas poças, ouvi algo bem estranho. Na verdade, estranho não. Fora de lugar, seria o termo mais correto. Era uma música.

Achei que estivesse delirando. Podia ser muito bem um efeito colateral da magia do velho doido. Pode ser que o modo como me lembro disso tudo hoje em dia seja meio distorcido. Alguém me disse uma vez que a gente nunca lembra as coisas como elas realmente aconteceram. O tempo passa e muito do que aconteceu fica pelo caminho por que a gente é obrigado a descartar certas coisas da cabeça para ocupar com outras novas. Ou talvez seja só o fato de que tudo passa a funcionar errado conforme a gente vai ficando velho e gasto, embaralhando uma memória na outra e juntando fatos que na realidade não tinham nada a ver um com o outro, fazendo com que a gente passe a lembrar tudo meio errado.

A verdade é que, independente de tudo isso, a impressão que eu tinha – e ainda tenho – é que a música era tão nítida, que o som reverberava acima do barulho do vento e da chuva. Sei que deve ser díficil de entender, mas não me peça para explicar mais que isso. Não sou bom nessas coisas.

Só depois de muito tempo é que avistei mais a frente, sentado em uma pedra na beira do caminho, o responsável pela melodia: era um bardo, tocando uma lira. O estranho é que os olhos dele estavam vendados com um lenço vermelho e ele tocava como se nem percebesse a chuva que caía, acompanhando o ritmo com a cabeça e mantendo a cadência batendo o pé direito no chão cheio de terra lamacenta.

Fiquei ali parado um instante, olhando meio hipnotizado. Tentando entender porque o cara tinha resolvido tocar justo ali e pensando comigo mesmo se valia a pena interromper a música para pedir alguma informação. Achei melhor não.

Bardo ou o que quer que fosse, alguém sentado no meio da chuva, tocando lira de olhos vendados podia ser tudo, menos normal. E eu já tinha tido minha cota de loucura na caverna do velho. Era melhor continuar andando, encontrar uma estalagem, uma casa, um abrigo, qualquer lugar onde pudesse me abrigar da chuva e me aquecer.

Quando dei o primeiro passo, a música parou.

– Ei garoto – era o bardo – Tem um Tibar?

Mesmo sabendo que não tinha nada, procurei nos bolsos.

- Não. Só tenho – melhor não falar do medalhão – uma colher de ferro.

O bardo dedilhou uma sequência de notas vibrantes, como se minha resposta por si só tivesse sido um grande acontecimento.

- É melhor do que nada. Posso lhe contar uma história pela colher. O que me diz? Parece um bom trato?

Pensei comigo mesmo, como costumava fazer sempre em situações como essa. Já estava perdido, já estava molhado e duvidava muito que um dia aquela porcaria velha e enferrujada fosse servir para alguma coisa. Estendi a colher para o bardo, que a colocou em um saco de couro ao lado da pedra em que estava sentado e sorriu. Seus dedos dançaram rápidos pelas cordas da lira.

E foi esta a história que ele contou… />
Cheers!

T.
PS. é…eu sei. Essa foi cruel.:)

Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury – Episódio 4

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta, conto on janeiro 27th, 2009 by jmtrevisan

Yo!

Depois de um longo e tenebroso inverno, estão de volta “As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury”! Não é sensacional? O principal deste capítulo é que é o primeiro escrito 100% depois de 2005, quando escrevi os dois primeiros e boa parte do terceiro, o que me deixa muito feliz. Depois de quase seis anos, consegui tirar o pobre garoto da parte inicial do conto. Ufa!

Para quem não tem a menor idéia do que estou falando, “As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury” é uma série em capítulos sem periodicidade definida (por enquanto), ambientada em Arton, o mundo do RPG Tormenta.

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As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury
Episódio 4

Era um daqueles momentos em que a gente tem certeza que vai morrer. Ou coisa pior. Acredite, em Arton há coisas piores do que a morte.

O caso é que mesmo para mim – um simplório garoto de apenas dez – estava bem claro que aquilo no caldeirão era sem a menor sombra de dúvidas um ensopado de coelho SEM coelho. E se algum de vocês ainda se lembra, só havia eu o velho na caverna. E aí de duas uma: ou eu era um gênio prodígio ou a conclusão era mais do que óbvia.

Mesmo assim respirei fundo e mantive o controle. Comecei a pensar em várias saídas alternativas. Eu podia, por exemplo, tentar roubar a colher de ferro e sentar com ela na cabeça do velhote. Ou dialogar racionalmente contando uma história triste e chorosa, na esperança que ele se comovosse e me livrasse do incômodo que seria – vocês sabem – morrer.

O problema é que tudo isso dava muito trabalho, exigia muita coragem e, analisando friamente, não ia dar certo. Ou seja: resolvi ser direto mesmo e ver no que dava:

- O senhor vai me comer?

O velho olhou para trás dando um gemidinho. Tinha uma ruga de surpresa saltada bem entre os olhos.

- É lógico que não! Não se come o Escolhido. De onde tirou essa idéia estúpida, garoto?

De onde eu tirei mesmo?

– Bem…se isso é um ensopado…

Parecia que eu tinha contado uma piada das boas. O velho riu alto, tremendo, as abas do chapéu balançando a cada gargalhada. Eu não entendia nada, mas ele parecia estar se divertindo bastante. Chegou a rolar pelo chão da caverna, espalhando pedrinhas e abraçando a própria barriga. Demorou um bom tempo até parasse e se levantasse limpando a roupa e retomando o fôlego

- Menino, isso não é um ensopado.

- Não?

- Não. É preciso um coelho pra se fazer um ensopado. E estamos sem coelhos.

Sim. Claro. Como se eu não tivesse percebido.

- Isso é um feitiço – continuou ele – Se você é o Escolhido, está no lugar errado. Você precisa ir para o lugar certo.

- Lugar errado?

- Sim. Existem os lugares certos e os errados. A Caverna é errada para você. O caldeirão é o certo.

- Lógico. O caldeirão – era melhor não discordar – E o que faz o feitiço?

- Leva você para o lugar certo.

Fantástico.

O velho tirou o chapéu, jogou-o de lado e passou as mãos pelos cabelos quatro vezes. Arrancou dois fios, um carrapato que havia ficado preso no dedão direito e jogou tudo no meio da mistura. A essa altura, o líquido dentro do caldeirão borbulhava, soltando uma fumaça cinza e um cheiro que lembrava muito esterco de porco. Depois se virou de volta para mim..

- Tem certeza que é o Escolhido, certo?

Claro que não.

- Claro que sim!

- Então há coisas de que precisa saber e coisas que vai precisar fazer – abriu o manto e tirou sabe-se lá de onde um objeto – Tome. Isso agora é seu.

Era um medalhão. Mas não do tipo valioso ou mágico, que você vende para o primeiro aventureiro cheio de moedas que te aparecer na frente. Era um daqueles bem vagabundos. Feito de latão, meio amassado, gasto e cheio de riscos. A corrente era grossa, longa e salpicada de manchas pretas. Antes que eu pudesse falar ou fazer qualquer coisa, o velho já tinha pendurado o troço no meu pescoço

- Este amuleto é muito importante. Agora ela é seu e você deve levá-lo até o reino de Fortuna. Não o perca. Não o venda. Não o dê a ninguém até chegar ao reino.

- E o que vai acontecer quando chegar lá?

- Alguém vai encontrá-lo.

Claro. Dessa vez eu ia pular dentro de um caldeirão, com um medalhão que servia para sabe-sel á o que, na esperança de sair sabe-se Khalmyr onde para então seguir até Fortuna e encontrar alguém que eu não sabia quem era. Maravilha. De repente, ser o tal do Escolhido não parecia tão legal.

- Como vou saber quem ele é?

O velho deu um meio sorriso.

- Ele vai saber quem você é. Venha. O feitiço está pronto. Hora de entrar no caldeirão.

É, eu sei. Nada daquilo fazia o menor sentido. E mesmo que fizesse, cá entre nós, que outra opção eu tinha? Como ia saber o que o coroa ia fazer comigo se soubesse que eu não era diabo de Escolhido nenhum? Que havia ido parar lá por mero acaso?

O que me lembrou uma coisa: onde estava Dreevack?

– Senhor? Houve outros antes de mim?

- Muitos – respondeu com uma fungada quase impaciente – Mas só há um Escolhido.

- Perdi um amigo. Seu nome é Dreevack. Achei que tivesse vindo parar aqui também.

O velho pensou, se aproximou do caldeirão e pegou novamente a colher de ferro. an>

- Nenhum Dreevack passou por aqui – estendeu a colher de ferro – Use isto quando chegar ao lugar certo. Vai ajudar a encontrá-lo.

Achei melhor não questionar. Segurei firme a colher e o amuleto enquanto me aproximava mais da borda do caldeirão. Tentei olhar dentro, na esperança de ter alguma noção do que ia acontecer em seguida mas o vapor não deixava ver nada. Era melhor acabar de vez com aquilo. Entrar dentro do caldeirão e me livrar do velho maluco.

O problema é que ainda havia uma pergunta me corroendo por dentro.

- O que aconteceu com os outros? Os que não eram O Escolhido?

O velho abaixou-se com um ranger de ossos, pegou o chapéu e colocou de volta na cabeça. A aba gigante fez surgir uma sombra supreendentemente assustadora sobre seu rosto.

- O que você acha? Transformei em coelhos!

Sem pensar duas vezes, pulei rumo ao desconhecido pela segunda vez no mesmo dia. E mergulhei no caldeirão.

Cheers!

T.

Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury – Episódio 3

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta, conto on julho 31st, 2008 by jmtrevisan

Oy!

E aqui estamos de volta.

“As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury” é uma série em capítulos sem periodicidade definida (por enquanto), ambientada em Arton, o mundo do RPG Tormenta D20.

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- Capítulos 1 e 2
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As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury
Episódio 3

E então eu havia pulado para dentro da arca de maneira corajosa e resoluta em busca de Dreevack.
Havia encarado o nobre desafio de salvar meu amigo sem nem mesmo saber se ele estava lá para ser salvo. Tinha mergulhado rumo ao desconhecido sem temer pela minha própria vida.

Não soa bonito, escrito assim desse jeito?

Pois bem. Acho que já deu para sacar que aquela não era uma arca qualquer, certo? Sei que eu não tinha dito isso ainda…mas sei lá…a luz, o vento estranho, os barulhos esquisitos. É pista mais do que suficiente se você não for um goblin. Ou uma pedra. Ou Dreevack.

Por conta disso, acho que não vai ser surpresa para ninguém se eu contar que quando me joguei dentro dela, tudo o que não aconteceu foi dar com a cara no fundo de madeira. Muito pelo contrário, já que o negócio não tinha fundo. Pelo menos não o fundo que deveria ter.

Gente que cai de algum lugar em geral cai por pouco tempo, até se espatifar. Quando lembro desse dia tenho a impressão de que a queda durou não minutos ou horas, mas dias. O buraco era como um fosso cheio de escuridão até a boca, do tipo que dá quase para pegar com a mão e guardar no bolso.

Tudo o que dava para saber é que eu estava caindo para algum lugar, mas a sensação não era a mesma de quando se cai do telhado de casa ou de uma árvore tentando ver a vizinha trocar de roupa. Era mais como se eu estivesse flutuando ao contrário. Para baixo ao invés de para cima. Só que bem mais rápido. Algo entre a velocidade de uma pedra e de uma pena de ganso. Ou de uma maçã meio comida e uma mantícora grávida. Algo assim.

Confuso, não? Eu sei. Depois fica pior.

Para ser bem sincero, não me lembro direito como é que cheguei ao fundo. Acho que tudo demorou tanto que acabei dormindo no meio do processo, porque me lembro muito bem de sentir o cheiro de coelho ensopado e só depois abrir os olhos.

* * *

Não vou nem fazer muito suspense: era uma caverna.
Ou melhor, o salão enorme dentro de uma caverna iluminada por tochas presas às paredes. No meio dela havia eu, uma fogueira, um caldeirão e um velho.

Só para avisar: vou usar o termo “velho” aqui porque é o único termo existente na língua comum que se aproxima do que eu quero descrever. Existe uma palavra quase impronunciável, mas muito mais adequada, em Orc que significa algo como “muito mais velho que a mãe da tia da prima da sua irmã depois de perder o último dente”. Era basicamente isso.

Fiquei deitado espiando com um olho fechado e o outro meio aberto e tudo o que ele fazia era mexer o caldeirão com uma enorme colher de ferro mais enferrujada que pá de coveiro. Estava sentado em cima de um tipo de esteira, com as pernas cruzadas, enrolado num manto gigante de várias camadas, feito de retalhos de todos os tecidos e cores que um moleque como eu podia imaginar. O cabelo branco escorria reto feito macarrão seco até o chão e na cabeça tinha um chapéu verde com as abas mais largas que já vi na vida.

Eu bem que preferia ficar ali deitado até que acontecesse algo digno de nota ou rezando para que não acontecesse absolutamente nada, mas meu estômago discordava insistentemente da minha pessoa. Em voz alta.

Estava ali, perdido no meu dilema, quando ouvi a voz do velho.

- Quer coelho?

E eu aceitei.

Afinal, porque não? A comida parecia mesmo boa. Coelho ensopado com ervas, que lembrava muito o que minha mãe fazia. Por um instante lembrei da minha família. De como eles poderiam estar nesse exato momento procurando por mim ou esperando em vão que eu voltasse.

Só então lembrei de Dreevack. Olhei em volta e tudo o que vi foram pedras, poças d’água, ossos de coelho e uma minúscula horta seca e inútil, que parecia completamente fora de lugar.

- Que lugar é esse? – perguntei tentando parecer o mais informal possível. Como alguém que vai até uma estalagem almoçar, gosta do estabelecimento e faz questão de anotar onde é só para poder voltar em uma próxima oportunidade.

O velho esticou os braços estalando os ossos sem a menor pressa.

- A Caverna. – respondeu puxando umas das pernas de coelho de dentro do caldeirão e jogando no prato.

Certo. Muito elucidativo.

- E onde fica a Caverna?

Uma mordida na perna de coelho. Duas mordidas na perna de coelho. Três séculos passados no mundo lá fora.

- Na Montanha.

Dá pra perceber onde isso vai parar não dá? Me levantei aos poucos e me espreguicei enquanto olhava em volta. Já tinha notado antes, mas naquele momento confirmei o fato: não havia nenhuma saída. Nenhum buraco, porta, alçapão, janela, escotilha. Nada.

- E a Montanha?

Dessa vez o velho não respondeu. Ao invés disso, continuou arrancando e mastigando a carne da perna do coelho com a meia dúzia de dentes bons que ainda tinha na boca. E quando não havia mais nenhum fiapo de carne, passou a chupar e lamber o osso fazendo barulho. Mas não como, por exemplo, seu avô faz na mesa depois do jantar enquanto sua avó reclama, sua mãe ri sem graça e seu pai aproveita pra se esgueirar até a rinha de galos mais próxima acompanhado de dois ou três amigos bêbados. Era um jeito meticuloso, quase artístico. Ele botava na boca e então tirava, raspava com a unha, passava nos dentes e lustrava com a ponta do manto. Então examinava e colocava na boca de novo.

Depois de muito tempo o velho olhou o osso mais uma vez, virou, revirou e, finalmente, parou. Um olho fechado e o outro arregalado, apontando na minha direção. E perguntou:

- Você é o Escolhido?

* * *

Vejam…não é uma pergunta fácil de ser respondida. Até onde eu sabia nunca ninguém tinha me escolhido para nada a não ser limpar esterco, carpir o terreno ou dar comida às galinhas mas a gente nunca sabe, não é?

No lugar onde eu morava, os mais velhos contavam a história de um rapaz chamado Arun Owit, que passou a vida inteira como carpinteiro em Hershey sem saber que, na verdade, era um escolhido do deus supremo Khalmyr, destinado a limpar Arton de todo o Mal e trazer uma nova era de luz e justiça ao Reinado. Pois bem.

Quando o fulano morreu atropelado por uma manada de trobos desgovernados sem nunca ter sequer visto uma espada direito e foi parar em Ordine, o plano onde as almas são julgadas, Khalmyr o chamou e perguntou por que não havia feito nada do que havia sido planejado para sua vida. Arun coçou a barba, apontou o dedo furioso e respondeu: “Alguém podia ter me avisado, não?”.

Meu caso podia ser o mesmo! E eu com certeza não queria acabar do mesmo jeito! Talvez estivesse destinado a feitos ainda maiores. Gorvernar um reino. Derrotar um dragão-rei. Me tornar um deus menor…

O problema é que eu sabia que era mentira. Era só um jeito de valorizar uma existência curta até aquele momento, é verdade, mas extremamente besta na visão global das coisas. No final das contas, Rykaard Ackhenbury era só o filho de um humilde fazendeiro e uma costureira, que havia se metido em uma enorme enrascada tentando se tornar o que jamais teria capacidade de ser: um herói de verdade.

Dentro de tudo isso, refletindo e considerando todos os fatores de maneira lógica e racionao, minha resposta só podia ser uma:

- Sim.

Houve um silêncio quebrado apenas por um risinho abafado de satisfação vindo do velho.

Ele se levantou e pôs-se a tirar coisas de dentro do manto de maneira frenética. Nem parecia o homem lerdo e sonolento de um instante atrás. Sem parar, pegava dezenas de potes cheios de pós estranhos e jogava dentro do caldeirão dizendo palavras bizarras às vezes baixinho, às vezes berrando com uma voz retumbante de trovão.

Eu não entendia nada daquilo, mas se tivesse que chutar, diria que eram temperos. Juro que vi um pedaço de pimenta bater no fundo do caldeirão. E essa era a parte esquisita. Porque além das coisas que ele jogava não havia nada lá dentro além de água e uns poucos legumes. Parecia a receita de um ensopado, mas tinha certeza que nao havia mais nenhum coelho por ali.

Se o prato era mesmo aquele, faltava alguma coisa.

E enquanto um fio gelado de suor escorria pelas minhas costas, percebi exatamente o que era.

Cheers!

T.

Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury – Sketchbook

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta on julho 23rd, 2008 by jmtrevisan

Alô!

Faz um tempo, tive uma idéia para usar a série do personagem Rykaard Ackhenbury e, pra isso, precisava de alguma ilustrações. O projeto não vingou, mas os sketches feitos pelo Danilo Martins (também conhecido como Terrificatio no fórum da Jambô) ficaram bem legais. E já que resolvi liberar os textos, nada mais justo que mostrar também a arte do rapaz (que inclusive serve de preview para o terceiro episódio).

Rykaard Ackhenbury

Rykaard e Dreevack

O Velho
O Velho, Rykaard e o caldeirão
A Arca

Quem quiser, pode checar mais artes legais inspiradas em Arton (ou não) no site do garoto. É só clicar no link.

Cheers!

T.

Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta, conto on julho 22nd, 2008 by jmtrevisan

Opa!

Agora que deixamos o centésimo post pra trás, vale uma comemoração de verdade não? E comemoração sem presente não tem a menor graça.

No dia primeiro de abril, entre várias brincadeiras, coloquei uma versão falsa de um preview do terceiro romance de Tormenta para download. Para recompensar quem caiu na palhaçada, adicionei no fim o primeiro capítulo de uma idéia que tive em 2004 ou 2005: uma história seriada ambientada em Arton.

Ainda não sei quando vou continuar o projeto, mas achei que valia a pena postar para todo mundo a primeira parte contida no falso preview e a segunda, até então inédita.

Com vocês, o jovem, impetuoso e nem sempre nobre, Rykaard Ackhenbury!


As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackenbury
Episódio 1

Meu nome é Rykaard Ackhenbury.

Tá. Sei que não é nada impressionante, mas nem todo mundo tem a sorte de merecer um apelido legal como “Ironfist”. Ou “Camaleão”, pelo menos.

Bem que eu podia começar minha história contando como escapei dos goblins de Uzzurthalikk, como enganei os caçadores de cabeças ou como vivi como um guaxinim durante dois anos.
Sobre meu tempo como pirata ou como membro do Protetorado do Reino (ou quase isso).

Mas não vou.

Ao invés disso, prefiro seguir o conselho de um bardo ex-amigo meu: “ao contar uma história, comece pelo início, passe pelo meio e quando chegar ao final, pare.”

E é assim que vou começar.

Pelo começo.

* * *

Sabe aquela pintura ali na parede? Sou eu. Lá na fazenda onde cresci – embora não muito – em Petrynia, bem perto de Altrim. Tudo o que meu pai fez durante a vida foi plantar milhos e criar ovelhas. Minha mãe costurava usando sobras de tecido. Uma vida bem simples e comum, como já deve ter dado para perceber.

Tá vendo aquele garoto do lado esquerdo? De cabelo ruivo espetado? É Dreevack Kevlet (e vocês achavam que o meu nome era ruim?). Meu melhor amigo. Pelo menos costumava ser.
A família dele era bem menos normal que a minha. Na verdade, Dreevack não tinha família, por assim dizer. Os pais tinham sumido há anos e largado o menino na porta da fazenda de uma tia gorda e fofoqueira que, por um acaso, era nossa vizinha.

O povo da região inventava versões diferentes sobre a história dos pais dele e boa parte era a própria tia quem contava. A mais popular delas dizia que a mãe dele era uma orc.

Os moleques mais velhos corriam atrás do coitado depois da escola fazendo “óinc, oinc, óinc” como porcos. Erguiam as espadas de madeira e batiam no traseiro do infeliz, pulando como se tivessem matado um orc de verdade. O engraçado é que ele nem ligava. Ou não tinha coragem de reagir, sei lá. Vai ver foi isso que a gente se deu bem.

Dreevack era feio, tomava banho de vez em nunca, tinha sido abandonado pelos pais sabe-se lá por qual motivo…mas não era um meio-orc. Seu azar foi ter caído de cara de uma macieira, quando tinha só 3 anos.

Uma clériga de Lena, ordenada fazia só alguns dias, estava de passagem e se ofereceu para “dar um jeito” no rosto do menino. Pena que o que a garota tinha de bondosa, tinha de incompetente. E a Deusa da Cura devia estar ocupada em alguma outra parte do Reinado naquele dia.
No fim até que deu certo. Mas o nariz do garoto ficou empinado. Bem empinado. Suinamente empinado.

A boca ficou torta. Os olhos ficaram meio vesgos e a cara inchou de um jeito estranho e nunca mais voltou ao normal.

Enfim, Dreevack ficou com cara de…er…orc. Um orc ruivo, rosado e cheio de sardas. Mas ainda assim um orc.

Para ser sincero, eu mesmo nunca dei a mínima. Queria muito poder dizer que era uma questão de bondade e caráter, que aprendi desde cedo que não se deve rejeitar aqueles que são diferentes de você e essa coisa toda. Mas não é verdade. Eu só não ligava.

Dreevack era divertido e engraçado de um jeito meio bobo. Isso me fazia parecer muito mais esperto. Além de tudo, ele não era só meu melhor amigo. Era meu único amigo.

Acabava que, sem nada para fazer, a gente brincava o dia inteiro. Eram horas e horas inventando histórias absurdas e enfrentando monstros de mentira em meio aos pomares e bosques da redondeza. Keebard, o velho marceneiro da vila, nos dava de vez em quando umas sobras toscas de madeira para que a gente construísse fortes de mentira no quintal. Aí passavamos a tarde inteira defendendo o lugar em nome do Reinado e do bondoso Imperador-Rei.

Quando meu pai voltava do trabalho na lavoura, atacávamos o coitado como se ele fosse um gigante das colinas pronto para devorar as tortas que a minha mãe tinha acabado de colocar na janela para esfriar. Reencenávamos mais de uma vez as grandes batalhas do glorioso Cyrandur Wallas, o maior herói de Arton (desde que você seja um pretyniense), e sonhávamos com o dia em que iríamos juntos à Arena de Valkaria assistir a uma das lutas de Loriane, a Estrela. Dreevack nunca usava seu próprio nome nessas brincadeiras. Ali ele era o grande Javali, o maior guerreiro do Reinado. Ou o segundo melhor, se considerarmos o bom e velho Cyrandur..

Uma vez, ele resolveu que devíamos ser piratas. Desenhou um mapa do tesouro completo e encheu sua tia para que fizesse um par de tapa-olhos e lenços com caveira. A mulher xingava o moleque o tempo todo, mas até que gostava dele e acabou fazendo. Pensando bem, talvez fosse mais por pena mesmo.

No fim das contas o “X” do mapa marcava um lugar nada importante a uns cinquenta passos da parte de trás dos estábulos de casa.

Pegamos as pás, nossas adagas falsas e partimos.

A caminhada, lógico, era curta. Mas o trajeto foi recheado com batalhas imaginárias contra kobolds e magos maléficos que insistiam, em vão, em atrapalhar nosso planos.

Finalmente chegamos ao lugar marcado. Fizemos nossa “dança da vitória” e nosso cumprimento secreto.

Dreevack ficou tão feliz que até se ofereceu para cavar. Sentei numa pedra ao lado, mordendo uma maçã, cutucando a terra solta com os pés sujos, observando e imaginando como seria encontrar um tesouro de verdade.

Uma garrafa com um gênio capaz de conceder desejos.

Um saco de mo
edas de ouro cunhadas por um rei esquecido. Os ossos de um monstro lendário…

Foi quando ouvi o baque seco da pá contra algo duro.

Algo sólido.

Algo de madeira.

Cavamos juntos e depressa…e encontramos uma arca velha. Era decorada com runas e adornos dourados. Na tampa, a cabeça de uma cabra de chifres longos e olhos de rubi olhava fixamente para nós dois.

Passamos quase uma hora tentando resolver o que diabos devíamos fazer. Eu preferia levar a urna para meu pai já que aquilo parecia o tipo de coisa de adultos. E pivetes não se metem com coisas de adultos. Todo mundo sabia disso. Menos Dreevack, é claro.

Ele queria abrir a coisa de qualquer jeito e tentou me convencer de todos os modos. Primeiro com argumentos, depois com subornos e, enfim, com ameaças.

Resolvi que não daria o braço a torcer. Não por teimosia nem bom senso, mas por covardia mesmo.

Foi aí que Dreevack se irritou, agarrou os chifres da cabeça de cabra e puxou para cima com toda a força.

E a tampa abriu.

* * *

As pessoas têm mania de jogar a culpa de tudo que acontece em alguma coisa, seja para fugir da própria responsabilidade ou para encontrar algum motivo mesmo no que existe de mais inexplicável.

Os deuses.

O destino.

O acaso.

Eu não. Acho isso uma grande bobagem.

Mas se tivesse que fazer o mesmo. Se um cara colocasse uma espada no meu pescoço e me obrigasse a culpar alguém por tudo o que aconteceu, digamos que…

Bem…a culpa foi toda de Dreevack.


As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury
Episódio 2

Onde foi mesmo que eu parei?

Ah, sim.

Havíamos desenterrado a arca e, aproveitando um de meus vários momentos de hesitação, meu amigo Dreevack tinha agarrado a droga dos chifres de cabra que adornavam a tampa e aberto a dita cuja contra a minha vontade.

Bem, não vi muita coisa depois disso.

Uma luz azul de tons verdes e meio amarelada começou a sair de dentro do negócio. Sabe o tipo de luz que só aparece quando alguém faz uma magia que ou não vai dar certo ou é muito, muito ruim? Pois é…era esse tipo.

E já que não dava para enxergar praticamente nada, fiz o que qualquer um faria: fechei meus olhos com força. Usando o tipo de sensatez que viria a me faltar pelo resto da vida, me encolhi com as mãos na cabeça e esperei nem um pouco ansioso – embora deva confessar uma certa sensação de curiosidade na forma de uma dor de estômago aguda e intermitente – que a qualquer momento um monstro de dois metros e meio saísse de dentro da arca e me devorasse.

Ok. Você vai dizer que um monstro desse tamanho nunca caberia dentro de uma arca pequena como aquela, certo? Até concordo. Se você não for daqui, lógico. Digo, aqui de Arton. Porque no mundo que EU conheço, onde alguém arranca um pedaço de um reino e transforma numa feirinha voadora só por causa de uma aposta e uma deusa anda pra lá e pra cá em trajes sumários transformando os outros em pudins de ameixa, qualquer coisa pode acontecer. Além do mais, eu só tinha dez anos.

Pois bem. Voltando ao assunto…

Do nada o brilho começou a aumentar absurdamente. O ar começou a esquentar. A brisa virou um vento maluco que levantava as folhas secas do chão, os galhos e tudo o mais que estivesse no caminho. Até terra entrou na minha boca aberta de espanto. Devo ter engolido uma formiga ou duas também.

Depois disso veio o som.

Um barulho estranho de instrumentos de cordas quebrados, sapos coaxando e velhas cantando em falsete embaixo de uma cachoeira de pé de moleque. Ou algo bem parecido com isso.

E então… tudo parou.

Abri os olhos aos poucos, ainda meio com medo. A arca continuava lá aberta. Um brilhozinho enjoado, fraco e nada convidativo saindo de dentro.

O vento tinha parado. Os sons estranhos também. Tudo estava como antes com exceção de uma coisa.

Dreevack havia sumido.

* * *

Antes que eu continue, uma pausa para reflexão.

Em Petrynia o povo adora aventuras. Histórias de heróis e monstros. Donzelas que largam a família para provar seu valor. Homens que desafiam a tudo e a todos partindo em busca de tesouros perdidos. Todas elas. Da mais sem graça até a mais épica e inesquecível. Deve ser a única parte do Reinado onde qualquer bardo fracassado se dá bem.

A maioria dos petrynienses sonha com essas coisas. Com o grande dia em que partirão de suas casas para se aventurar pelo Reinado, na esperança de marcar seus nomes na história do mundo.

Isso acontece muito provavelmente por causa de Cyrandur Wallas, o maior herói de Arton em todos os tempos e fundador de nosso reino. Muita coisa que acontece aqui rola por causa dele, na verdade.

Muito bem, eu disse a maioria. O que, para quem não entendeu, não quer dizer todo mundo.

Mesmo com toda essa herança aventuresca, existe uma pequena parte da população que se contenta sem muito esforço em viver uma vida pacata, sentada na varanda enchendo o bucho de bolo, fumando cachimbo e só ouvindo as histórias do pessoalzinho da outra parcela. Gente que não ia se sentir nem um pouco mal se passasse a vida inteira sem ver um ogro, um demônio ou uma guerreira gostosa empunhando uma espada dupla.

Tá. Esquece a parte da gostosa.

O fato é que eu sempre pertenci àquela minoria.

Ficar brincando de enfrentar trilhões de inimigos que não existem com um machado feito de madeira podre ou fazer de conta que viajava pelo plano de Ragnar matando hobgoblins, tudo bem. Fazer isso tudo de verdade? Nem a pau..

Meu sonho era um dia herdar a fazenda do meu pai, ter uma macieira no quintal, crescer como um grande comerciante e arranjar uma bela garota para ser mãe dos meu filhos. Só isso.

Assim, quando me vi sozinho na clareira, perto da arca, pensei bastante antes de chegar a qualquer conclusão.

No fundo, no fundo, tinha certeza que Dreevack tinha se escondido enquanto eu fechava os olhos e estava pronto, naquele exato momento, para me dar um susto daqueles.

Ou talvez tivesse ido embora. Quando eu voltasse para a fazenda, ia encontrar o maldito sentado na cerca, rindo enquanto enchia a boca dos biscoitos que minha mãe fazia.
Ou então…

Ou então Dreevack tinha sido engolido, sugado pela arca e ido parar em algum lugar terrível. Alguma dimensão assustadora, cheia de coisas terríveis que provavelmente machucavam, espetavam e mastigavam.

Ou de monstros de dois metros e meio que não cabiam em arcas daquele tamanho.

* * *

Quando você é adulto e fica com medo, é só fazer cara de mau e sentar a espada na cabeça de alguém que está tudo resolvido. Quado sé é criança, você tem vontade de correr para o colo da sua mãe e depois se esconder embaixo da cama por mais ou menos uns quinze anos. E era exatamente o que eu queria fazer naquela hora.

O problema é que Dreevack era meu amigo. Pior que isso…era meu melhor e único amigo. E se tem uma coisa que meu pai me ensinou é que não se deixa alguém assim em apuros.

Olhei para o baú aberto, a luz rodopiante refletindo em meu rosto e com o misto de coragem e medo que só um garoto de 10 anos é capaz de sentir, pulei para dentro.
Precisava salvá-lo e nada iria me deter.

* * *

Pelos deuses…

Como eu era imbecil!

Aguardo comentários.:)

Cheers!

T.