Conto – UPSTATIC

Posted in conto on abril 20th, 2009 by jmtrevisan

Yo-ho!

E continuamos com o resgate das velharias do Dr. Careca. Na minha cabeça eu sempre achei que já havia postado Upstatic por aqui. É um conto curto, direto, com predominância de diálogos e por isso uma leitura bem fácil. É também um dos meus preferidos.

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Conto – UM

Posted in conto on março 17th, 2009 by jmtrevisan

Hey!

Vira e mexe aparece alguém por aqui pedindo que eu poste os contos que tinha em meu antigo (e finado) site, Gatos, Almas e 5 Cents. UM, é um deles. Se desapegar um pouco de seus textos antigos deve ser alog normal para qualquer autor. A cabeça da gente muda, o estilo muda e a gente passa a ver quinhentos defeitos onde antes só via uns dez. Com este texto não é diferente. Há muita coisa que me incomoda, mas ainda gosto de muita coisa também. Principalmente porque, apesar de melancólico como todos os outros escritos nessa época, é um conto mais realista. Sem elementos muito fatasiosos, sem nada de sobrenatural. Coisa rara nos meus textos em prosa.

Justamente por isso acabei resolvendo manter o texto como estava, desde que foi escrito há sei lá quantos anos (o Word me diz que o arquivo é de 2001, mas tenho a impressão de que a história é bem mais antiga que isso), mantendo intactas todas as suas imperfeições. Assim, além de ler uma boa história, você, leitor, ainda pode aprender com as burradas que cometi no passado. Parece um bom negócio não?

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Valentine

Posted in Dr. Careca, conto on fevereiro 13th, 2009 by jmtrevisan

Hoh!

Nunca liguei para poemas. Alias, não gosto de poemas. Nem sei diferenciar de poesia, na real. Acho meio chato, a maioria é subjetiva demais, etérea demais, cabeçuda demais ou inteligente demais para mim. Por conta disso, nunca me arrisquei muito a escrever esse tipo de texto. Rima, se você não faz direito, é algo que acaba soando besta, infantil e gratuita. E apesar de ter me arriscado a compor músicas – que, na verdade, é algo diferente apesar de parecer igual – acho que não é bem minha praia.

Palmas para quem gosta, se interessa e consegue fazer algo bom no gênero, mas eu não sou um deles. Pelo menos não em português. Daqui a uns anos, vai saber.

Apesar de tudo isso, fiquei fascinado pelos poemas (ou poesias, dammit?) que o Neil Gaiman costuma colocar no meio de suas coletâneas de contos (meus preferidos estão no Smoke and Mirrors – ou Fumaças e Espelhos, para quem prefere a versão nacional). São textos rápidos, divertidos, ágeis e fáceis de entender, além de não fugirem muito do estilo de prosa dele.

E aí, sei lá por que, vez ou outra me aparecem umas idéias nesse formato. E em inglês. Valentine, que escrevi ontem à noite, é uma dessas:

Valentine

His name was Valentine
Had a job that was just fine
As his pet, a porcupine
And its nickname was “Swine”

His name was Valentine
Living only to survive
Always fearing to cross the line
In his pocket, not a dime

His name was Valentine
Eating fish that he won’t fry
Watching people passing by
Dancing, singing, grinning sly

Poor, old, crazy Valentine

O que eu mais curto é que vem quase tudo pronto na cabeça.

Passei o dia dando de cara com banners do Valentine’s Day (O Dia dos Namorados gringo) e fiquei pensando: “Fica todo mundo aí comemorando…mas e se o tal Valentine fosse um cara ferrado na vida?”. Uns dois segundos depois me veio a primeira frase e a coisa deslanchou.

Até pensei em botar uma foto para ilustrar ou tentar desenhar a minha versão do Valentine, mas prefiro que cada um tenha a sua.

Quem quiser se arriscar, pode mandar sua interpretação através dos comentários!

Cheers!

T.
PS/Edit: só para não cometer uma injustiça, outra influência do texto foi a rima original de Solomon Grundy (que depois virou vilão da DC): Solomon Grundy/Born on a Monday/Christened on Tuesday/Married on Wednesday/Took ill on Thursday/Grew worse on Friday/Died on Saturday/Buried on Sunday/That was the end of Solomon Grundy.

Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury – Episódio 5

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta, conto on fevereiro 4th, 2009 by jmtrevisan

Uhu!

Em tempo recorde, aqui vai mais um episódio de As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury! É engraçado, porque a idéia deste capítulo e – principalmente – a imagem do personagem que aparece nesta parte da história, tem estado fixa na minha cabeça há quase um ano. Colocar tudo isso para fora dá uma sensação de alívio que vocês não tem idéia. O melhor é que o episódio 6 vai ser baseado em uma idéia ainda mais antiga.

Para quem não tem a menor idéia do que estou falando, “As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury” é uma série em capítulos sem periodicidade definida (por enquanto), ambientada em Arton, o mundo do RPG Tormenta.

Para ler os capítulos anteriores, basta clicar no link correspondente

- Capítulos 1 e 2
- Capítulo 3
- Capítulo 4
- Sketchbook


As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury

Episódio 5

Dessa vez não sei o que aconteceu. Mas não foi como quando entrei na arca, disso tenho certeza. Nada de sensação de estar caindo. Nada de luzes. Nada de nada, para falar a verdade. Acho que o que aconteceu quando entrei no caldeirão foi que apaguei.

Acordar foi uma experiência gradual. Primeiro um zunido bem lá no fundo. Depois a percepção de estar deitado, a sensação de gotas caindo na minha cara e finalmente a constatação de que estava deitado na grama à beira de uma estrada de terra enlameada. A colher de ferro firme na mão direita e o medalhão vagabundo pendurado no pescoço. E na chuva.

Onde em Arton, exatamente? Ótima pergunta.Não havia nenhuma placa indicando qualquer direção ou local. Nem casas por perto. Também não vi plantações ou bichos correndo pra lá e pra cá.

A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi algo que ouvi uma vez em uma conversa do meu pai com um taverneiro em Altrim: se você se vê sozinho em uma estrada desconhecida, é só uma questão de tempo até que meia dúzia de monstros bizarros apareçam literalmente do nada para te atacar, roubar, destroçar e mais uma porção de coisas desaconselháveis para qualquer pessoa que pretenda ter uma vida longa e saudável. É como uma daquelas leis místicas ou divinas que regem o mundo e foram criadas sabe-se lá por que ou por quem.

Como tudo que é criado em Arton sem motivo ou finalidade é coisa de Nimb, fechei os olhos por um instante e rezei – ou melhor, implorei – para que o Deus do Caos, da Sorte e do Azar mantivesse seus monstros longe da minha jovem carcaça. E deu certo. Para a minha felicidade e desapontamento de quem ouve essa parte da história, nada de mais emocionante aconteceu. Não naquele exato momento, pelo menos.

Só a chuva apertou ainda mais – e talvez eu pudesse ter evitado que isso acontecesse se tivesse dedicado um pouquinho da minha reza a Allihanna, Deusa da Natureza – mas a verdade é que naquela altura do campeonato já não fazia mais diferença mesmo. Minhas roupas já estavam mais do que ensopadas. E o pior é que eu tinha fome. E além da fome, meu corpo doía.

O fato é que no meio do tamborilar dos pingos caindo nas poças, ouvi algo bem estranho. Na verdade, estranho não. Fora de lugar, seria o termo mais correto. Era uma música.

Achei que estivesse delirando. Podia ser muito bem um efeito colateral da magia do velho doido. Pode ser que o modo como me lembro disso tudo hoje em dia seja meio distorcido. Alguém me disse uma vez que a gente nunca lembra as coisas como elas realmente aconteceram. O tempo passa e muito do que aconteceu fica pelo caminho por que a gente é obrigado a descartar certas coisas da cabeça para ocupar com outras novas. Ou talvez seja só o fato de que tudo passa a funcionar errado conforme a gente vai ficando velho e gasto, embaralhando uma memória na outra e juntando fatos que na realidade não tinham nada a ver um com o outro, fazendo com que a gente passe a lembrar tudo meio errado.

A verdade é que, independente de tudo isso, a impressão que eu tinha – e ainda tenho – é que a música era tão nítida, que o som reverberava acima do barulho do vento e da chuva. Sei que deve ser díficil de entender, mas não me peça para explicar mais que isso. Não sou bom nessas coisas.

Só depois de muito tempo é que avistei mais a frente, sentado em uma pedra na beira do caminho, o responsável pela melodia: era um bardo, tocando uma lira. O estranho é que os olhos dele estavam vendados com um lenço vermelho e ele tocava como se nem percebesse a chuva que caía, acompanhando o ritmo com a cabeça e mantendo a cadência batendo o pé direito no chão cheio de terra lamacenta.

Fiquei ali parado um instante, olhando meio hipnotizado. Tentando entender porque o cara tinha resolvido tocar justo ali e pensando comigo mesmo se valia a pena interromper a música para pedir alguma informação. Achei melhor não.

Bardo ou o que quer que fosse, alguém sentado no meio da chuva, tocando lira de olhos vendados podia ser tudo, menos normal. E eu já tinha tido minha cota de loucura na caverna do velho. Era melhor continuar andando, encontrar uma estalagem, uma casa, um abrigo, qualquer lugar onde pudesse me abrigar da chuva e me aquecer.

Quando dei o primeiro passo, a música parou.

– Ei garoto – era o bardo – Tem um Tibar?

Mesmo sabendo que não tinha nada, procurei nos bolsos.

- Não. Só tenho – melhor não falar do medalhão – uma colher de ferro.

O bardo dedilhou uma sequência de notas vibrantes, como se minha resposta por si só tivesse sido um grande acontecimento.

- É melhor do que nada. Posso lhe contar uma história pela colher. O que me diz? Parece um bom trato?

Pensei comigo mesmo, como costumava fazer sempre em situações como essa. Já estava perdido, já estava molhado e duvidava muito que um dia aquela porcaria velha e enferrujada fosse servir para alguma coisa. Estendi a colher para o bardo, que a colocou em um saco de couro ao lado da pedra em que estava sentado e sorriu. Seus dedos dançaram rápidos pelas cordas da lira.

E foi esta a história que ele contou… />
Cheers!

T.
PS. é…eu sei. Essa foi cruel.:)

Tormenta: As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury – Episódio 4

Posted in Rykaard Ackhenbury, Tormenta, conto on janeiro 27th, 2009 by jmtrevisan

Yo!

Depois de um longo e tenebroso inverno, estão de volta “As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury”! Não é sensacional? O principal deste capítulo é que é o primeiro escrito 100% depois de 2005, quando escrevi os dois primeiros e boa parte do terceiro, o que me deixa muito feliz. Depois de quase seis anos, consegui tirar o pobre garoto da parte inicial do conto. Ufa!

Para quem não tem a menor idéia do que estou falando, “As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury” é uma série em capítulos sem periodicidade definida (por enquanto), ambientada em Arton, o mundo do RPG Tormenta.

Para ler os capítulos anteriores, basta clicar no link correspondente

- Capítulos 1 e 2
- Capítulo 3
- Sketchbook

As Aventuras e Desventuras de Rykaard Ackhenbury
Episódio 4

Era um daqueles momentos em que a gente tem certeza que vai morrer. Ou coisa pior. Acredite, em Arton há coisas piores do que a morte.

O caso é que mesmo para mim – um simplório garoto de apenas dez – estava bem claro que aquilo no caldeirão era sem a menor sombra de dúvidas um ensopado de coelho SEM coelho. E se algum de vocês ainda se lembra, só havia eu o velho na caverna. E aí de duas uma: ou eu era um gênio prodígio ou a conclusão era mais do que óbvia.

Mesmo assim respirei fundo e mantive o controle. Comecei a pensar em várias saídas alternativas. Eu podia, por exemplo, tentar roubar a colher de ferro e sentar com ela na cabeça do velhote. Ou dialogar racionalmente contando uma história triste e chorosa, na esperança que ele se comovosse e me livrasse do incômodo que seria – vocês sabem – morrer.

O problema é que tudo isso dava muito trabalho, exigia muita coragem e, analisando friamente, não ia dar certo. Ou seja: resolvi ser direto mesmo e ver no que dava:

- O senhor vai me comer?

O velho olhou para trás dando um gemidinho. Tinha uma ruga de surpresa saltada bem entre os olhos.

- É lógico que não! Não se come o Escolhido. De onde tirou essa idéia estúpida, garoto?

De onde eu tirei mesmo?

– Bem…se isso é um ensopado…

Parecia que eu tinha contado uma piada das boas. O velho riu alto, tremendo, as abas do chapéu balançando a cada gargalhada. Eu não entendia nada, mas ele parecia estar se divertindo bastante. Chegou a rolar pelo chão da caverna, espalhando pedrinhas e abraçando a própria barriga. Demorou um bom tempo até parasse e se levantasse limpando a roupa e retomando o fôlego

- Menino, isso não é um ensopado.

- Não?

- Não. É preciso um coelho pra se fazer um ensopado. E estamos sem coelhos.

Sim. Claro. Como se eu não tivesse percebido.

- Isso é um feitiço – continuou ele – Se você é o Escolhido, está no lugar errado. Você precisa ir para o lugar certo.

- Lugar errado?

- Sim. Existem os lugares certos e os errados. A Caverna é errada para você. O caldeirão é o certo.

- Lógico. O caldeirão – era melhor não discordar – E o que faz o feitiço?

- Leva você para o lugar certo.

Fantástico.

O velho tirou o chapéu, jogou-o de lado e passou as mãos pelos cabelos quatro vezes. Arrancou dois fios, um carrapato que havia ficado preso no dedão direito e jogou tudo no meio da mistura. A essa altura, o líquido dentro do caldeirão borbulhava, soltando uma fumaça cinza e um cheiro que lembrava muito esterco de porco. Depois se virou de volta para mim..

- Tem certeza que é o Escolhido, certo?

Claro que não.

- Claro que sim!

- Então há coisas de que precisa saber e coisas que vai precisar fazer – abriu o manto e tirou sabe-se lá de onde um objeto – Tome. Isso agora é seu.

Era um medalhão. Mas não do tipo valioso ou mágico, que você vende para o primeiro aventureiro cheio de moedas que te aparecer na frente. Era um daqueles bem vagabundos. Feito de latão, meio amassado, gasto e cheio de riscos. A corrente era grossa, longa e salpicada de manchas pretas. Antes que eu pudesse falar ou fazer qualquer coisa, o velho já tinha pendurado o troço no meu pescoço

- Este amuleto é muito importante. Agora ela é seu e você deve levá-lo até o reino de Fortuna. Não o perca. Não o venda. Não o dê a ninguém até chegar ao reino.

- E o que vai acontecer quando chegar lá?

- Alguém vai encontrá-lo.

Claro. Dessa vez eu ia pular dentro de um caldeirão, com um medalhão que servia para sabe-sel á o que, na esperança de sair sabe-se Khalmyr onde para então seguir até Fortuna e encontrar alguém que eu não sabia quem era. Maravilha. De repente, ser o tal do Escolhido não parecia tão legal.

- Como vou saber quem ele é?

O velho deu um meio sorriso.

- Ele vai saber quem você é. Venha. O feitiço está pronto. Hora de entrar no caldeirão.

É, eu sei. Nada daquilo fazia o menor sentido. E mesmo que fizesse, cá entre nós, que outra opção eu tinha? Como ia saber o que o coroa ia fazer comigo se soubesse que eu não era diabo de Escolhido nenhum? Que havia ido parar lá por mero acaso?

O que me lembrou uma coisa: onde estava Dreevack?

– Senhor? Houve outros antes de mim?

- Muitos – respondeu com uma fungada quase impaciente – Mas só há um Escolhido.

- Perdi um amigo. Seu nome é Dreevack. Achei que tivesse vindo parar aqui também.

O velho pensou, se aproximou do caldeirão e pegou novamente a colher de ferro. an>

- Nenhum Dreevack passou por aqui – estendeu a colher de ferro – Use isto quando chegar ao lugar certo. Vai ajudar a encontrá-lo.

Achei melhor não questionar. Segurei firme a colher e o amuleto enquanto me aproximava mais da borda do caldeirão. Tentei olhar dentro, na esperança de ter alguma noção do que ia acontecer em seguida mas o vapor não deixava ver nada. Era melhor acabar de vez com aquilo. Entrar dentro do caldeirão e me livrar do velho maluco.

O problema é que ainda havia uma pergunta me corroendo por dentro.

- O que aconteceu com os outros? Os que não eram O Escolhido?

O velho abaixou-se com um ranger de ossos, pegou o chapéu e colocou de volta na cabeça. A aba gigante fez surgir uma sombra supreendentemente assustadora sobre seu rosto.

- O que você acha? Transformei em coelhos!

Sem pensar duas vezes, pulei rumo ao desconhecido pela segunda vez no mesmo dia. E mergulhei no caldeirão.

Cheers!

T.