Conto – Son of a Gun (Parte 2)

Ho!

Apesar do atraso (o fim de semana foi tenso), aqui vai a prometida segunda parte de Son of a Gun, conto publicado nos primórdios da revista Dragão Brasil.

Son of a Gun – Parte 2

A casa construída no número 345 da Avenida Melville era antiga.Tinha dois andares e um ar típico dos filmes de terror da década de 40. Pelas janelas dava para perceber o quão escuro estava lá dentro. Luzes piscavam repetidamente projetando sombras fantasmagóricas na parede.


Tomas parou o carro na frente da casa mas deu a volta pelos fundos. Para sua sorte deixava sempre uma arma guardada no porta-luvas do veículo. Era engraçado como em momentos de tensão seu instinto de policial aflorava. Parou em frente à velha porta de madeira e deu um chute com a sola do sapato, como um personagem de seriados de ação.


A porta dava acesso direto à cozinha. A tensão voltou a tomar conta de Tom enquanto andava cuidadosamente na direção do que parecia ser a sala de estar. A pouca luz reduzia sua capacidade de reação pela metade. Sabia que, naquelas condições, seu pai podia pegá-lo quando quisesse.


Atravessou a passagem entre a cozinha e a sala e descobriu de onde vinha a luz que iluminava o ambiente vez ou outra. Três computadores se espalhavam pela sala. Antes deveriam estar ordenados numa única fileira, mas agora estavam tombados no chão, parcialmente soterrados por disquetes e cópias impressas.


Os monitores apresentavam imagens variadas. Um deles permanecia rodando uma proteção de tela infinita repetindo incessantemente uma frase de uma música do Nirvana como se fosse um mantra sagrado. Um deles, porém, chamou a atenção de Tomas. Mostrava uma espécie de ficha pessoal com foto, impressões digitais e todos os dados pessoais possíveis e imagináveis. Provavelmente nem a polícia tinha algo tão preciso.


Aproximou-se para ver a quem pertencia a ficha em questão e teve um novo choque. No alto da tela podia-se ler um único nome: Tomas Smith.


Quem quer que fosse o dono daqueles arquivos sabia realmente um bocado a respeito dele. Não usava o sobrenome do pai desde criança. Sempre havia preferido Greenwild, o sobrenome de solteira de sua mãe.


Continuou vasculhando as coisas e o que encontrou supreendeu-o ainda mais. Haviam fotos suas nas mais variadas ocasiões. Saindo de um jogo de hockey, indo ao cinema. Uma entretanto, lhe chamou mais a atenção do que qualquer outra.


A foto mostrava Tomas ajoelhado num beco. Em seus braços uma garota de não mais de 25 anos se estendia aparentemente sem vida. De seu pescoço uma abertura vertia sangue. O rosto de Tomas estava virado na direção da câmera. As pupilas vermelhas. As presas estendidas e a boca aberta molhada de sangue.


Sentiu-se mais vunerável do que nunca. Lembrava-se daquela ocasião. A foto mostrava seu rosto porque ele havia percebido o flash. Tinha corrido, tentado alcançar o fotógrafo mas não tinha conseguido. Durante as duas semans seguintes passou momentos de extrema ansiedade, esperando que o fato fosse revelado de maneira estrondosa, mas nada aconteceu e o fato se perdeu em sua memória.


Agora entretanto, tudo vinha à tona. Mesmo aparentemente distante, parecia que seu pai tinha feito um bom trabalho recolhendo informações a seu respeito. Algo nada surpreendente tratando-se do maior caçador de vampiros da América. Parecia bem claro que tudo aquilo havia sido trabalho de Jonas Smith.


Exceto que…exceto que havia alguma coisa errada. Algo não se encaixava. Alguma peça faltava no quebra cabeça. Algo óbvio mas que lhe fugia da mente no momento. algo que…


Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho repentino. O som de folhas de papel sendo amassadas.


Passos.


Virou-se o mais depressa que pode, apontando a arma instintivamente para o vazio. Os passos se aproximavam numa caminhada lenta e pausada. Permaneceu na mesma posição, tremendo de medo e tensão. Não se atrevia a avançar nenhum passo.


Tudo o que podia fazer era esperar.



*          *          *


A sombra de Jonas Smitth surgiu, cobrindo a luz que vinha do cômodo adjacente. Não era mais o homem massivo e robusto de quem Tomas se lembrava vagamente, mas um velho magro e cansado, carregando uma besta na mão direita como se a arma pesasse mais de uma tonelada.


O velho parou na metade do caminho entre a porta e o lugar onde estava Tomas. A besta caiu de sua mão num baque surdo contra o chão de madeira. Tomas não podia ver seu rosto na escuridão, mas em seu íntimo sabia que o velho estava sorrindo.


- Você cresceu Tom – disse o velho numa voz calma e inacreditavelmente amável – Deus, você cresceu muito…


Tomas estava confuso mas não se atrevia a baixar a arma. Havia lidado com criminosos antes e conhecia todas as artimanhas. Para isso frequentara a academia de polícia. E sendo seu pai ou não, Jonas era um criminoso.


- Pode parar com essa conversa, velho. Sei porque me chamou aqui. Vi as fotos, seus arquivos de computador…


Jonas gargalhou como se tivesse ouvido a melhor piada de todos os tempos. Seu corpo se contorceu e, incapaz de manter-se em pé, sentou-se numa poltrona ainda se divertindo. Batia com a mão na coxa direita como uma criança satisfeita num show de circo.


- MEUS arquivos? – disse Jonas – MINHAS fotos? Heh…não seja ingênuo filho. Nada disso é meu. Você me conhece. Esse não é meu estilo…Pense bem, garoto. Você sabe exatamente de quem é…


O rapaz parou por um instante. Artifício ou não, seu pai tinha razão. Aquele nem de longe era o modus operandi de Jonas Smith. Jonas era como um caçador de cervos: perseguia, se escondia se fosse preciso, mas liquidava a presa em não mais que uma única noite. A pessoa que estava atrás dele era muito mais meticulosa e insegura. Quem quer que fosse não queria matá-lo mas sim mantê-lo sob controle, afim de extrair o que quer quisesse dele. Alguém próximo, inteligente e com acesso fácil a qualquer tipo de informação. Alguém como…


Darth.


Tomas sentiu-se tonto. A sala começou a girar. Sua mão direita se abriu e a arma que estivera segurando foi ao chão. Por que Darth?


- Este mundo é perigoso Tom. O traidorzinho ia tirar tudo de você, se quer saber. Chantagem é um meio muito eficiente de se manter alguém sob controle, sabe?


- Onde está ele – perguntou Tomas se recompondo – Onde está Darth?


Jonas sorriu de leve.


- A essa hora? No Purgatório, na melhor das hipóteses. Mas se Deus é misericordioso como sei que é o garoto deve ir para o inferno muito em breve.


Então Jonas havia matado Darth. Um presente de pai para filho numa manifestação distorcida de amor paternal.


- Porque fez isso, pai? Porque me chamou aqui? Porque me mostrou tudo isso e me salvou de Darth? Você nunca…nunca…


- Acho que a frase que você procura é “você nunca ligou para mim, pai”.


Jonas levantou-se com visível dificuldade e começou a andar na direção do filho. Tomas sequer tentou se afastar. Estava cansado, confuso. Sentia-se como uma criança de novo. Lágrimas começaram a surgir em seus olhos borrando sua visão.


- Sempre amei você, filho. Sempre. Passei a maior parte da minha vida caçando demônios…quando na verdade o maior demônio era eu mesmo.


Tomas não conseguia mais conter o choro. Aproximou-se do pai e abraçou-o.  Pela primeira vez na vida entendia que tudo o que era, toda a sua personalidade e seu comportamento inescrupuloso era nada mais que uma fachada para esconder o que era na verdade. Um garotinho sozinho e com medo.


- Fiz muita coisa errada, Tom…e me arrependo até os ossos por isso. Mas é tarde demais para mim.


As pernas de Jonas Smith começaram a se curvar. Seu corpo foi tombando aos poucos, cedendo como uma marionete sem cordas. Tomas segurou o pai como pôde e foi abaixando-se junto, ajoelhando-se no chão de madeira, agarrando o pai como uma mãe segura o filho.


- Pai…você está bem?


Jonas olhou para o filho, tentando manter as pálpebras abertas. Os olhos claros refletindo a luz intermitente dos computadores.


- Acho que…não. Estou morrendo garoto…Deus resolveu cobrar o tributo pelos meus erros – a voz falhou por um instante e Tomas aproximou o velho de seu peito – Só queria ter…mais tempo…Tomas…Me desculpe…


Os olhos de Jonas se fecharam e sua voz foi sumindo aos poucos. Seu coração ainda batia mas tão lento quanto um relógio de corda. Tomas baixou a cabeça e ia recomeçar a chorar quando um pensamento lhe atingiu repentinamente.


Como num passe de mágica percebeu o porque de tudo aquilo. Num instante entendeu porque o pai lhe procurara e porque implorara por um voto de confiança. O único que podia salvar Jonas Smith era seu filho.


Nunca havia transformado ninguém em vampiro, mas conhecia o processo. Era o único meio de salvar-lhe a vida, de tê-lo de volta e garantir que ambos pudessem ter juntos a vida que lhes fora negada pela loucura do pai. Se o trouxesse de volta das garras da morte ele voltaria curado. E Tomas teria com ele não Jonas Smith, o “Assassino da Meia-Noite”, mas sim Jonas Smith, o pai que nunca tivera.


Aproximou sua boca do pescoço do velho e abriu um corte com as presas afiadas. Começou a sugar o sangue morno com urgência, com medo de que fosse tarde demais. Sugou o quanto pôde e deu ao homem seu pulso cortado para que ele então sugasse.


Há muito tempo não se sentia tão feliz. Sentia-se em êxtase. Deliciava-se com recordações de fatos que ainda não haviam acontecido. Pensava em todas as coisas maravilhosas que podia fazer quando tivesse seu pai de volta. Pensou em tardes vendo TV, em jogos de golfe e churrascos no quintal da casa. Pensou em conversas até tarde, partidas de pôker e em todas as coisas de que havia se privado até então. Estava alegre, contente. Um sorriso dançava em seu lábios.


E nem mesmo quando a estaca na mão de Jonas Smith desferiu um arco no ar e atingiu seu coração com precisão milímetrica, seus pensamentos de felicidade se interromperam. E foi só quando o fogo começou a tomar conta da casa consumindo seu corpo e transformando- em pó, que o sorriso finalmente deixou os lábios de Tomas Smith.


*          *          *


Jonas, o “Assassino da Meia-Noite”, permaneceu do lado de fora da casa até que ela se queimasse totalmente. Tinha experiência suficiente para saber que é preciso ter certeza de que um vampiro estava realmente morto.


Quando os bombeiros começaram a surgir ele partiu, andando lentamente pela rua, deleitando-se com o vigor recém adquirido. Lembrou-se de como Abrãao havia falhado ao oferecer o filho em sacrifício ao Senhor e sorriu.


Ainda tinha muito o que fazer. Havia muitas criaturas malignas, estendendo suas garras invisíveis pela Terra, arrastando boas almas para o lado das trevas. Havia muitas delas, mas não isso não era mais problema.


Jonas Smith estava de volta.


E tinha todo o tempo do mundo.

Cheers!
T.

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One Response to “Conto – Son of a Gun (Parte 2)”

  1. Rodrigo "The" Quaresma disse:

    Ha! é só eu acabar de ler a parte um e você coloca a parte dois no ar? Tá me vigiando Careca?! xD

    Muito bom, assim dá até vontade de achar um grupo pra jogar storyteller de verdade.

    Cyaz.

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