…
Os acontecimentos e personagens descritos e apresentados neste conto são inteiramente fictícios. O fato que o inspirou, infelizmente, não é.
CLARA MORREU
- Clara morreu.
Era, Pedrinho, com a cerveja em uma mão e o controle do Playstation 2 no colo, esperando a vez de jogar.
Eu mesmo não via Clara há anos, o que tornava injusto enquadrá-la como amiga. Era uma conhecida. Uma companheira de baladas de uma era distante, onde a vida era mais simples, mais louca e mais passível de concessões.
Pedrinho tinha ficado com ela um tempo, naquela mesma época, mas não aguentou o tranco. Clara era como uma Ferrari a trezentos quilômetros por hora, ganhando velocidade a cada quarteirão, cruzando avenidas movimentadas e faróis vermelhos, se safando no último segundo sabe-se lá Deus como. Já ele era como uma tranquila bicicleta, guiada por alguém muito mais interessado em ver e aproveitar a paisagem do que em chegar rápido onde quer que fosse. No fim, não deu certo. Foi-se o romance, ficou todo o resto.
A bebida e os lutadores estilizados na tela transformaram rapidamente a conversa com cara de domingo chuvoso em um bate-papo leve de sábado à tarde. Quem tinha contado? Onde foi? Como? Por que? Que pena. Ela era tão legal. A vida continua. Bola pra frente.
O golpe só viria na segunda, quando a vida real dissipa a névoa do fim de semana e te obriga a pôr os pés no chão. Não era dor nem tristeza. Era só aquele sentimento estranho, um frio na barriga que nunca passa. A sensação de que faltava alguém em algum lugar. E faltava mesmo.
Foi Pedrinho quem apareceu com a teoria.
- Clara não morreu.
Pelo celular, me explicou quase rindo da idéia maluca: Clara não tinha morrido, é claro. Não era o estilo dela.
Os e-mails, as condolências, as mensagens estupefatas eram nada menos do que o fruto de um mal entendido, uma confusão proposital. Clara não tinha morrido. Tinha cansado.
Cansado da própria vida, dos amigos, do emprego, das baladas, das músicas, dos parentes, da vida corriqueira tão inadequada para ela que sempre fora tão livre além de qualquer consequência. Por isso tinha se livrado de tudo – se despido do que era, do que havia sido e das consequências de ser quem um dia se tornaria – e voado para algum outro lugar, algum outro país, ilha ou dimensão.
Pedrinho se despediu com um “até mais” exalando alívio, convencido pela própria fantasia.
Mas fazia sentido, não fazia? Era muito mais justo, mais adequado e mais digno que um tombo escada a baixo, um acidente de moto, uma briga de bar, um assalto, um escorregão no chão molhado, uma bala perdida, um ataque do coração, uma gripe, um atropelamento ou um estilhaço de granada, não era? Não era?
Era sim. Era mesmo.
Quanto mais o tempo passava, mais fácil ficava entender que Pedrinho estava certo, mesmo estando provavelmente errado.
Clara não tinha, afinal, morrido. Clara só tinha ido embora.
- dedicado à memória de Luana Nicolai (28/05/1980-25/04/2009).
T.
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Gostei muito do conto Mauro! Uma pena que é por um motivo tão triste.
Clara lua, lua clara, noite clara, dia cinza. Lua clara, clara Ana. Luana
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Fico até meio sem-graça porque é um conto bonito, mas ao mesmo tempo triste. Luana deve ter sido uma pessoa especial, a ponto de inspirar alguém a externar sua dor de maneira tão singela, mas sincera.
Minhas condolências e que ela descanse em paz, onde quer que esteja.
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Hoje em dia a vida e os relacionamentos são tão virtuais que as pessoas parecem que não morrem mais, elas só saem do Orkut.
Veremos. Um dia, todos veremos.
Boa Careca.
Abraço,
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Como dizia o velho autor,
As pessoas não morrem, ficam encantadas.
(tipo o Elvis
)
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Boa Careca! Muito bom!
QUando eu morrer quero que voce seja o bardo que irá declamar uma parte de minha vida na minha festa de despedida, regada à vinho e gaitas de fole!
Freedom! Para todos um dia!
Namastê!
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caro escritor
amei a forma que escolheu para falar da luana,tão linda,tão bela e extremamente feliz.queria acordar e descobrir que tudo não passou de um pesadelo,meu coração está sangrando!!LUANA é um ser único,inesquecível para todos nós que tivemos o prazer de conhecê-la.
abraço jac
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Condolências.
E só.
Cyaz
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Perfeito.
Simples, triste, porém reconfortante.
Um dos melhores contos que já li.
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Nuss, chega veio-me lagrimas ao olhos…
muito lindo
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Cara, ler esse conto me deu um puta aperto no coração. Já fui/ainda sou apaixonado por uma Clara… E a gente não se vê há eras…
É foda.
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Infelizmente, sei que não existem palavras para romper esse silêncio, para confortar esse vazio. Sei que só passando por isso para saber como é. Sei que é difícil quando alguém de que se gosta se vai, de uma forma ou de outra. Mas um dia, mais cedo ou mais tarde, todos vamos, e isto é inevitável. Parabéns pelo conto, e continue de cabeça erguida, pois ainda resta muita gente boa nesse mundo.
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conheci a Luana .Linda,menina de personalidade.
infelizmente ela se foi,mas como foi bom ler esse poema e saber que ela foi tão importante e tão querida.
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Sei que estou postando um comentário um pouco “atrasado”..
Mas é que só há pouco comecei a visitar esse Blog.
E esse conto é o primeiro em que estou postando.
Não é que eu não tenha gostado dos outros,
mas esse decididamente me tocouç eu perdera um amiga há pouco.
Parabéns a você, Careca, pelo grande escritor que és.
E por retratar de maneira tão simples e ainda assim comovente o “cansaço” da sua amiga.
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