Conto – State of Love and Trust (Parte 1)

Posted: 24th abril 2009 by jmtrevisan in conto

Greetings!

State of Love and Trust foi publicado na revista Dragão Brasil há sei lá quantos anos (uns 10 anos, talvez?), em uma época em que eu não só era fascinado por Vampiro: A Máscara como era também o principal colaborador no que dizia respeito a materiais para o sistema. Para ser sincero, nunca fui muito fã das intrigas políticas que pareciam ser o centro do jogo, mas adorava os vampiros anarquistas e o Sabá.

A idéia de State of Love and Trust era mostrar  “o outro lado do muro”. Pela quantidade de pessoas que citam este conto como um de seus preferidos entre os meu trabalhos, acho que deu certo!

State of Love and Trust

Era mais ou menos duas da manhã. As portas não tinham ficado fechadas há tanto tempo assim mas o calor fazia com que o ar ficasse quente e viciado. Isso sem contar o detestável cheiro de carne apodrecendo que parecia querer tomar o lugar. Os dois corpos pendurados ainda balançavam quando o vento batia de leve vindo da janela e o sangue havia chegado naquele maldito estado em que deixa de escorrer e começa a pingar de leve, fazendo aquele barulho chato que uma torneira faz quando alguém esquece de fechar direito. David continuava ali, parado na porta com a arma na mão enquanto Jack continuava com sua tentativa frustrada de cobrir os rastros e as evidências.

Jack era o tipo de garoto que fazia o estilo punk revoltado. Costumava tocar com uma bandinha de hardcore no Live and Let Die, um barzinho meia boca no subúrbio. Acho que o nome da banda era The Army ou Enemies of the System. Um desses dois. Aliás, eu odeio esse tipo de coisa, o cara rouba uma guitarra, aprende três acordes, arranja um bando de amigos desocupados, soca a turma toda dentro da garagem dos pais e quando a mãe pergunta onde ele estava e por que não foi à escola ele diz que formou uma banda e que estava fazendo música. Depois eles gravam uma demo, levam até o estúdio de um amigo que conhece o primo de um colega do sobrinho do dono de uma gravadora e então. . . bingo! Está fabricado o mais novo expoente do rock and roll mundial. Pelo menos por um verão. Já vi isso acontecer pelo menos uma dúzia de vezes.

Mas esse não era o caso do nosso amigo Jack. Ele era só um idiotinha sem a menor capacidade de fazer alguma coisa sozinho além de se masturbar ou limpar o próprio traseiro. Lembrava um pouco a mim mesmo no tempo em que fiz parte do bando de Floyd, na costa leste. Muito potencial mas pouco cérebro.

David era diferente. Se não era educado, pelo menos sabia se vestir. Tinha um pouco mais de classe. Andava sempre de terno e gravata, onde quer que fosse. O cigarro na boca e os óculos escuros eram acessórios praticamente indispensáveis. Às vezes me perguntava quantas vezes ele já havia assistido a Cães de Aluguel. Era um pouco confiante demais em suas próprias capacidades, é verdade, mas todos nós sabíamos que um dia isso o levaria à ruína. Eu mesmo fiz o possível e o impossível para que ele entendesse. Nesse ponto posso dizer que todos nós fizemos o máximo. Humildade nunca foi a virtude mais popular entre os nossos, se é que você me entende.

Não sei direito como se conheceram mas me lembro quando vi os dois pela primeira vez. Foi numa casa noturna no centro velho, durante um show reservado do Black Crowes.

Jack estava sentado com David numa mesa em frente a minha, planejando um assalto a banco. Não parecia nada muito elaborado. Os dois simplesmente pretendiam entrar no lugar durante a noite e levar tudo o que pudessem carregar. Uma tática extremamente suicida. Tudo muito simples. Então os dois se levantaram e saíram do clube.

Segui os dois e observei toda a operação. Saldo total? Quatro vigias mortos e sete mil dólares em notas novas. Promissor, não? Pois é, foi exatamente o que pensei. Qualquer idiota podia perceber que eles tinham um certo potencial. Além disso, em tempos de guerra não há muito tempo a perder: pega – se o que se tem. E foi o que fiz.


Não foi difícil encurralar os dois num beco qualquer. Menos difícil ainda foi quebrar os dentes do Jack quando ele acertou um tiro no meu ombro ou desarmar David antes que ele tentasse a mesma besteira.

É claro que eu estava me divertindo muito com tudo aquilo. Mesmo depois do que eu havia feito eles ainda achavam que podiam fazer alguma coisa e, pensando pela lógica deles, dava até para entender. Podia até ver uma certa fagulha de esperança nos olhos dos dois infelizes ( muito mais em David do que em Jack, uma vez que ele ainda estava ocupado demais com a hilariante tarefa de cuspir as lascas dos dentes quebrados). Era uma chama fraca mas existia.

Pelo menos até mostrar para eles que eu era um vampiro. Cara, você devia ter visto o rosto daqueles dois. É engraçado que com quase cinqüenta e cinco anos como um sanguessuga eu não tenha me acostumado ainda mas. . . porra, aquilo era divertido demais! Os dois não tinham a mínima idéia do que estava acontecendo, ficaram ali paralisados de medo e espanto, borrando as calças, com os olhos esbugalhados e a boca aberta num grito mudo. E sabe o que EU fiz? Simplesmente sentei – me no chão e comecei a rir. Ri como o mais alucinado e louco de nossos membros. Ri por ter mostrado com tanta facilidade para aqueles dois infelizes o quanto a humanidade é frágil. Quando terminei meu acesso repentino de alegria espontânea eles ainda estavam ali, imóveis como dois postes.

Jack ainda teve uma reação um tanto quanto inesperada, atirando no meu peito e perfurando um de meus dois inativos pulmões, mas era exatamente isso o que eu queria. Queria ter a certeza que eles saberiam exatamente o quanto eram insignificantes, que suas raivas e anseios representavam tanto para mim quanto os pensamentos de uma cadela no cio. Que saberiam exatamente o que estariam deixando para trás quando se tornassem um de nós. Que aquela seria a última e derradeira humilhação de suas pobres e medíocres vidas mortais. Que entendessem exatamente o que se tornariam quando aquela noite chegasse ao seu fim.

E foi só quando tive certeza de tudo isso que dei – lhes o restrito acesso ao clube dos imortais.



*          *          *

Bem, como todos devem ter notado haviam ainda algumas formalidades a serem preenchidas. Ninguém se torna um vampiro DE VERDADE se não passar pelos rituais de criação. Afinal de contas, são eles os responsáveis pelo que REALMENTE nos tornamos, não é mesmo? É como costumam dizer por aí: NO PAIN, NO GAIN.

Aliás essa parte da história é sempre a mais interessante. Cada um reage à sua própria maneira aos rituais. Alguns arrebentam seus caixões e escavam o caminho de volta até a superfície na mesma noite e permanecem inalterados. Outros choram ao perceber o que se tornaram e se recusam a admitir o inevitável (destes, poucos sobrevivem ou tornam – se úteis). Jack e David não foram diferentes. Os rituais transformaram e uniram os dois de uma forma irreversível.

David levantou do caixão ofegante, tomou cerca de três litros de sangue e acendeu um cigarro como se nada tivesse acontecido. Sua primeira frase foi: “Onde estão meus óculos escuros?”

Jack só acordou dois dias depois, louco como um demônio. Durante quase uma semana não foi capaz de dizer nada além de grunhidos e palavrões ininteligíveis. Alguns vampiros recém criados não agüentam o impacto psicológico imposto pelos rituais e passam a ter flutuações de humor e comportamento, depois tornam – se paranóicos em potencial e se transformam em psicopatas com fortes e legítimas tendências homicidas. Com direito a carteirinha de sócio do Clube Internacional dos Serial – Killers e tudo o mais. Jack era um deles.

Até aí tudo bem, eu também era. Acontece que o problema com Jack era um pouco mais complicado. Traumas de infância ou complexos escondidos naquela privada entupida que costumamos chamar de cérebro costumam voltar com força total durante o sepultamento. A coisa funciona mais ou menos como se você resolvesse dar um enorme festa na sua cabeça, não tivesse convidado os caras e eles aparecessem de surpresa na maior cara de pau. Lembro que quando passei pelo ritual vi umas quinhentas vezes o dia em que peguei meu velho estuprando minha irmã mais nova. Jack deve ter passado por alguma coisa bem parecida. A única diferença é que, até onde sei, ele nunca teve uma irmã mais nova.

Apesar de todos os fatores, Jack nunca havia se tornado um grande criminoso. Nunca tinha ido muito mais longe do que roubar uns toca fitas para financiar sua dose diária de pó. Pelo menos até aquele assalto a banco. Talvez ele nunca tivesse passado disso se não houvesse conhecido David. Este sim foi seu verdadeiro guia turístico em sua viagem pelo submundo.

O fato é que Jack era só um moleque normal com um grande potencial para se tornar um grande assassino. Um potencial que descansava sossegado num canto escuro esquecido do cérebro do rapaz. Um garoto com talento para se tornar um grande desenhista nunca irá saber disso enquanto não tiver um lápis na mão e uma folha de papel na frente. Jack jamais saberia que tinha vocação para matar se não tivessem lhe dado uma arma na mão e colocado alguém à sua frente para servir de alvo.

Tudo isso fazia com que eu visse aquele idiota quase como um filho. Sei que isso não é muito comum ou aconselhável entre os membros de nossa “família” mas o que eu podia fazer? Como iria adivinhar o que aconteceria mais tarde?

O mais estranho é que, mesmo com tudo isso, Jack não representava o menor perigo. Eu já havia passado por todos os problemas que ele “vivia” e sabia como combatê – los. Jack estava absolutamente sob controle.

O problema era David.


*          *          *



David ou Dave, como já estava me acostumando a chamá – lo, estava muito longe de se encaixar no estereótipo comum de ser humano, aquele tipo normal que você encontra no supermercado procurando a seção de produtos dietéticos ou lavando o carro em frente de casa todos os domingos à tarde. Muito pelo contrário.

Só para começar, Dave já era um criminoso antes mesmo de se tornar um vampiro. De acordo com os médicos que cuidaram dele no reformatório em que esteve na adolescência, ele tinha uma espécie de disfunção num setor específico do cérebro ocasionando alucinações e tremores no corpo quando se submetia a momentos de grande tensão. Foi por isso que ficou imóvel quando ataquei os dois naquele beco.

Dave está na lista dos mais procurados em pelo menos cinco estados. Esteve em todos os jornais na época em que se meteu naquele caso de seqüestro mais ou menos uns três anos atrás. Foi líder de uma gangue de adolescentes no México, trabalhou com tráfico de drogas como crack e cocaína em Miami e fez parte de um grupo que administrava cerca de setenta por cento dos prostíbulos da costa oeste. Passou dois anos na cadeia, conseqüência de um assalto mal sucedido. Ouvi falar que tem pelos menos seis mortes não creditadas em seu currículo e quatro processos de vitimas de agressão rolando na justiça. Dizem que dois cartéis colombianos estão à sua procura desde que ele “desapareceu”com um carregamento de armas vindas do Líbano.

Claro que mais da metade disso tem grandes chances de serem apenas boatos mas, analisando – se com cuidado o notável currículo de nosso adorável rapaz, pode – se notar facilmente qual era o ponto crítico na história toda.

O lance é que Dave era o demônio encarnado antes mesmo de se tornar um vampiro. Não consigo entender ainda o que pode ter dado tão errado em sua vida mas em algum momento ele deve ter ultrapassado a estreita linha que separa os normais dos completamente insanos e , quando pensou em voltar, já era tarde demais.

Uma vez que Dave parecia ser a perfeita personificação da Besta em todos os seus aspectos, seria de se esperar então que o fato de ter se tornado um sanguessuga seria a gota d’água que faltava para que o copo transbordasse e ele pirasse de vez. Mas não foi o que aconteceu.

Pelo menos não aparentemente.

Após os rituais, Dave se tornou um homem calmo e discreto. Suas ações eram extremamente comedidas e planejadas. A disfunção que tanto o atormentara parecia ter sido completamente curada, encerrando de vez os tremores e alucinações que sofrera em sua vida mortal. Tornou – se frio e manteve sua indiferença quanto à vida de outros seres humanos mas, fora isso era um cara como qualquer outro. Do tipo que se vê lavando o carro todo domingo à tarde.


*          *          *



Jack já estava se acostumando à vida de vampiro e se divertia com isso. Vi – o mais de uma vez correndo atrás de prostitutas pela madrugada com as presas e garras expostas, somente para encurralar as desgraçadas e estuprá – las como jamais teria coragem de fazer em seus tempos de mortal. Por outro lado, os componentes de sua banda começavam a dar sinais de cansaço quanto a irresponsabilidade e inaptidão musical de Jack. Certo dia, os três integrantes fizeram um pequena reunião e resolveram expulsar Jack do grupo.

Na manhã seguinte os três rapazes foram encontrados mortos num beco próximo ao Live and Let. Na parede estava pixado algo mais ou menos como “Vão pro Inferno e toquem a canção de Lúcifer. Mandem lembranças minhas ao Senhor das Trevas. “

Dave e Jack haviam se tornado grandes amigos depois do acontecido. Não chegava a ser algo tão forte como dois irmãos, digamos assim mas era uma coisa bastante significativa para se passar desapercebida. Era mais ou menos como um sentimento de cumplicidade.

Os dois conquistaram rapidamente um respeito bastante considerável em nosso bando. Não que todos adorassem aqueles dois mas eles já haviam provado seu valor em combates pela nossa causa, e isso sempre significou muito entre os nossos. Por isso, cerca de um ano após o Abraço,meus amigos já eram considerados os dois membros mais importantes de nossa pequena “família”. A dupla dinâmica, como costumavam dizer.

Como eu disse, estava tudo indo muito bem. Mas havia uma tempestade se aproximando. E das grandes.


*          *          *


Analisando – se friamente, aqueles eram tempos um tanto quanto difíceis. Nossa seita estava se expandindo rapidamente, é verdade, mas havia alguma coisa muito errada. Havíamos banido ou exterminado cerca de setenta por cento dos vampiros que se recusavam a aceitar nossa mensagem de salvação. A cidade era praticamente nossa.

O problema eram os outros trinta por cento. Pelas nossas contas, os que faltavam eram exatamente os mais antigos, correspondentes ao regente da cidade e sua corja ( uma espécie de “rei”dos vampiros locais e sua “corte”de puxa sacos e capachos ).

Invadimos o cemitério e procuramos em cada toca de rato, cada buraco ou vala aberta e não encontramos absolutamente ninguém. Bem, concluímos, eles só podiam ter partido da cidade com o rabo entre as pernas e procurando pelo primeiro caixão vazio que encontrassem, assim podiam dormir como os velhos cansados e esclerosados que eram e esquecer o pesadelo em que seu lindo e maravilhoso domínio havia se transformado. Só podia ser isso. Gargalhamos, achando graça de nosso próprio raciocínio e imaginando as caras dos imbecis correndo em pânico antes que o sol nascesse.

E foi só quando a última gargalhada morreu que eles apareceram. Eram sete vampiros caíndo das árvores como frutos maduros e surpreendo – nos como um bando de renegados idiotas.

Eles foram derrotados é verdade, mas perdemos vários dos nossos. Alguns foram exterminados logo de cara enquanto outros foram gravemente feridos. Jack estava entre esse últimos.

Se você já viu um daqueles filmes sobre o Vietnan onde os caras mostram os soldados americanos completamente perdidos enquanto os vietcongues atiram sabe se lá de onde, derrubando os ianques um a um como se fossem aqueles patinhos de tiro ao alvo num parque de diversões, já tem uma leve noção do que aconteceu naquele momento. O caso é que, entre mortos e feridos, só ficamos eu e Dave. Ninguém acredita mas foi mais do que suficiente. Guardo até hoje o crânio daquele regente imbecil. Não me zango com os que não acreditam mas foi exatamente isso o que aconteceu. O resto é história.

Como disse antes, Jack tombou no meio da briga e por pouco não bate as botas. Seu estado ainda era bastante crítico e, mesmo sendo um vampiro, talvez não resistisse mais do que um ou dois dias.

Dave foi bastante afetado por isso. Aliás, essa foi a primeira vez em que entendi a verdadeira extensão da amizade existente entre aqueles dois. Era mais do que cumplicidade. Era um vínculo.

Um vínculo de sangue pessoal, intransferível e muito forte. Mais forte ainda que aquele que os membros de nossos bandos firmam uns com os outros durante os rituais de criação. Dave permaneceu ao lado de Jack durante a primeira noite inteira enquanto eu e os outros saímos para caçar. Quando voltamos Dave havia partido.

À principio achamos que ele havia saído para se alimentar mas depois de exatos dois dias após o seu sumiço nos demos conta de que ele não voltaria nunca mais.

Ao contrário do que pensávamos, Jack se recuperou rapidamente. Menos de uma semana depois da batalha os ferimentos já estavam quase totalmente cicatrizados e ele já podia andar, mesmo que com alguma dificuldade. Mais alguns dias e ele já podia voltar as ruas e caçar seu próprio alimento. Durante o tempo em que ficara de cama nós costumávamos raptar alguns humanos, em sua maioria garotas entre dezessete e dezenove anos, e levávamos até ele para que não morresse de fome. Nenhuma delas sobreviveu à sede insaciável de Jack ou ao seu sadismo refinado mas sabe como é. . . não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos. Não que ele fosse totalmente desumano, embora estivesse muito próximo disso, mas a vida ( ou como quer que ela se chame depois que se está morto ) pode se tornar extremamente entediante quando se está de cama. E se você tem uma faca na mão e alguém com quem brincar. . . bem, espero que você tenha captado a mensagem.

Quando contamos sobre Dave ele apenas sorriu de leve e disse:

“Eu sei”.

Logo mais, a segunda parte.

Cheers!

T.

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  1. Luciano disse:

    Muito bom esse conto… lembro que eram umas 3 páginas da revista e quem não lia o primeiro paragrafo desistia pela leitura extensa, mas foi o máximo…

    Parabéns!!

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