E continuamos com o resgate das velharias do Dr. Careca. Na minha cabeça eu sempre achei que já havia postado Upstatic por aqui. É um conto curto, direto, com predominância de diálogos e por isso uma leitura bem fácil. É também um dos meus preferidos.
UPSTATIC
- Você tá falando comigo? – disse o homem atônito colocando sobre a mesa a xícara de café quente.
- Claro, idiota. Tá vendo mais alguém por aqui?
O homem olhou em volta na cozinha, voltou-se para o velho rádio AM/FM e balançou a cabeça negativamente.
- Então deixa de pergunta besta e presta atenção. Deus do céu!
Era o rádio quem falava. Deixara de transmitir o noticiário das sete e começara a chiar. Logo depois a estática aumentou e então veio a voz.
- Você não é um idiota completo. Sei disso. Qual o seu nome?
- Mateus.
- Muito bem Mateus. Tenho uma mensagem para você. Muito importante.
O homem chacoalhou a cabeça e esfregou os olhos. Provavelmente não havia acordado ainda e estava sonhando. Com certeza não tinha sequer deixado a cama ou livrado-se dos lençóis de bolinhas verdes que Ana havia insistido tanto em comprar na última segunda feira. Estava tendo uma espécie de. . . “sonho acordado”. Era isso. Mas essas coisas só aconteciam em filmes, não? Bem, seu analista que se virasse para arranjar uma explicação plausível.
- Ei! Tá prestando atenção?
- Claro – disse Mateus ajeitando os óculos – Você tem uma mensagem.
- Exato!
A voz no rádio pigarreou.
- A Terra vai ser invadida, Mateus.
- Vai ser o que?
- Invadida! – repetiu a voz irritada – Você é surdo ou o que?
Na verdade era ligeiramente surdo. Nada grave. Havia ido ao médico mas não havia necessidade de uso de aparelho para corrigir o defeito por que. . . bem, isso não vem ao caso.
- Você tá falando sério?
- Claro! Por que diabos eu mentiria?
- Não sei – disse Mateus cortando o pão e passando manteiga quase inconscientemente – Hoje em dia quase todo mundo mente.
- Exato! E é este o ponto, Mateus. Você tá cercado de mentirosos.
- Estou?
- Sim, senhor! Não se pode confiar em mais ninguém, não é mesmo?
- M-mas como? Por que?
A voz baixou um pouco partindo para um tom quase de confidência.
- Você está cercado por larvas, Mateus.
- Cercado pelo que?!?
- Por larvas! E fala baixo, diabos! Elas podem ouvir.
Mateus abaixou-se com o ouvido próximo ao alto falante. Sua gravata encostava na mesa e aderia às primeiras migalhas de pão.
- Presta atenção. As larvas é que vão tomar o planeta.
- Hummm. . . e como elas são?
- São grandes, Mateus. Grandes, verdes e gosmentas como. . . como. . . humm. . . já olhou dentro de um Cheddar McMelt depois da primeira mordida?
- Ugh. . . já.
- Pois é. São como aquilo. Mas você jamais reconheceria uma.
- Por que não? – retrucou Mateus, levantando-se indignado – Não sou nenhum idiota.
- É claro que não! – respondeu a voz em tom amistoso – Sei disso. Mas é que elas estão disfarçadas.
- Disfarçadas?
- É!
- Disfarçadas de que?
- De humanos!
Mateus afastou-se do rádio como se tivesse tomado um choque. Seu traseiro bateu no banquinho jogando-o ao chão. O pão escapou das mãos e caiu com a manteiga pra baixo, logicamente.
- É isso mesmo, Mateus. Há centenas, milhares, talvez milhões de larvas espalhadas por aí escondidas sob o manto de humanos comuns.
- Isso é bobagem. Você é de algum programa de televisão?
- Talvez seja. Pode ser que seja tudo bobagem. Mas e se não for? Você pode estar convivendo com larvas o tempo todo, Mateus. Talvez seu chefe seja uma larva. Seus amigos, todos larvas. E o pior: talvez sua mulher seja uma larva. Já parou para pensar que você pode estar dormindo com uma larva há. . . quantos anos mesmo?
- Vinte.
- Pois é, vinte anos! Deus do céu!
Mateus parou para refletir por um instante. Seus amigos não eram larvas. Douglas exagerava na bebida é verdade e Tom tinha o costume nada saudável de bater na esposa quando chegava em casa. Seu chefe também não era uma larva. Era um verme, como todos bem sabiam no escritório. E Ana? Vinte anos de casamento haviam-na tornado grande, gorda e flácida. . . mas isso não fazia dela uma larva. De maneira alguma.
- Bem, não é só isso meu caro.
- Não?
- Tsc, tsc. Você tem um papel nisso tudo, Mateus.
- Tenho?
- Tem sim. Só você pode salvar a Terra, meu caro.
- Eu? Por que eu?
- Porque você é um predestinado. Veja seu nome: “Mateus”! Nome de profeta. . .
- Mateus era apóstolo. . .
- Sim, sim. . . apóstolo. . . claro. De qualquer forma, está tudo em suas mãos, companheiro.
- Sei – disse Mateus interessado – E o que eu tenho que fazer?
- Ah! – respondeu a voz satisfeita – É muito fácil. Fácil pacas!
A voz baixou de novo para um tom de confidência, quase sussurrando.
- Tá vendo aquela faca?
- Qual?
- Aquela ali.
Mateus olhou atônito para a mesa.
- A de passar manteiga no pão? AQUELA faca?
- Essa mesma. Ela vai ser seu instrumento de salvação!
- Meu instrumento? Uma faca de passar manteiga?
- É, diabos! Cristo! Você só sabe perguntar e perguntar. . .
- E o que eu faço com ela?
A voz suspirou claramente impaciente.
- Bem, com a faca você vai poder livrar a Terra das larvas de uma vez por todas!
- Como?
- Cortando-as ao meio, seu idiota! Vai ser nojento, eu sei, mas este é um preço pequeno pela salvação do planeta, não acha?
- Claro. Isso inclui Ana e os rapazes?
- É! Não há exceções numa guerra, meu caro.
Mateus parou e refletiu por um instante. De certa forma a teoria fazia sentido. Afinal de contas uma invasão dessas não era uma idéia tão absurda assim, não é mesmo? Talvez os tablóides estivessem sempre certos afinal de contas.
Por outro lado, não podia confiar em qualquer um. Amiga ou não, aquela voz era uma estranha. Mesmo tendo aparecido no seu bom e velho radinho de pilhas.
- Espere um pouco – disse um Mateus autoritário e cheio de si – Como posso confiar em alguém que nem conheço? Quem é você?
A voz sorriu do outro lado.
- Eu? Sou um anjo, Mateus.
- Um. . . anjo?
- É. Sei que pode parecer absurdo, mas é verdade. Elvis está aqui do meu lado.
- E-Elvis?
- É!
A voz se afastou um pouco, como se estivesse falando com alguém fora do alcance do microfone. Em seguida Mateus ouviu a inconfundível voz grave do Rei cantando “It’s Now or Never” , coincidentemente sua música predileta.
Podia não confiar na voz do anjo, uma vez que nunca fora religioso para a desgraça da mãe, mas era fã número um de Elvis e. . . bem, se Elvis estava de acordo então deveria estar tudo bem.
Deveria, mas não estava.
- E então, Mateus? Pronto para o trabalho?
- Olha, você foi muito legal contando tudo isso, mas. . .
- MAS. . . ?
- Mas eu não posso. Ana, os rapazes, até meu chefe. . . larvas ou não. . . bem, eles ainda são gente entende?
- Sei. . . então você tá querendo dizer que vai entregar os pontos, certo?
- É. Certo.
- Bem, bem. . . você é quem sabe – disse a voz distanciando-se – Depois não diga que não avisei. . . Você tem certeza?
- Tenho.
- Tá legal. A gente se vê por aí.
Os chiados aumentaram. Podia-se ouvir agora a música de fundo da rádio WBZ.
- Ei! – disse Mateus antes que a voz sumisse – Mande um abraço para o Rei. E sem ressentimentos, certo?
- Claro meu chapa – disse a voz – Sem ressentimentos.
A voz foi-se e, aos poucos, como ecos perdidos num sonho distante, as músicas da rádio retornaram. Depois foi a vez do locutor e do noticiário esportivo. E então as coisas estavam normais novamente. Como sempre haviam sido.
Após o incidente na cozinha, Mateus continuou sua vida como se nada tivesse acontecido. Foi ao trabalho, conversou normalmente com o chefe (um verme, não uma larva, que fique bem claro) e saiu com os amigos como costumava fazer à quintas-feiras. Durante o dia mal recordou-se do acontecido e à noite o fato não passava de uma vaga lembrança esquecida no fundo do cérebro.
Seu corpo ensangüentado foi encontrado caído na cozinha, três dias depois. Morto.
Ao lado, sentada num velho banquinho diante da mesa do café da manhã, estava Ana, sua esposa. Sorria e segurava uma faca de passar manteiga. Do tipo que se tem às dúzias na gaveta de talheres.
Em cima da mesa, entre o pão e a manteiga, um velho radinho de pilha emitia chiados e estática.
Nada mais que estática.
Cheers!
T.
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Po eu tenho certeza que já li esse conto, no blogspot que você tinha… muito maneiro o conto!
Doidera total!
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Eu dei um search e olhei entre os posts com tag de conto. Como não achei…
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Guia do careca das galáxias!
É isso q acontece quando vc tira 1 no sentir motivação!
Toda vez q o desprovido capilar escreve passa um filme na minha cabeça! sai da minha cabeça, sua larva!
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É isso que acontece quando não se ouve as vozes no rádio. Te metem uma faca de manteiga na cabeça pensando (ou não) que você é uma larva.
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Cheddar McMelt, é tudo culpa dele! É por ele, que elas entram no seu corpo!
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Hmm, deixa eu advinhar, a mulher dele era religiosa até o talo? XD É por isso que eu digo que esse papo de anjos e profetas é coisa do demônio! XP
Cyaz
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E o Oscar de melhor trote do ano vai para…
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“Secret Invasion” – Marvel Comics roubou sua ideia.
xD
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Caraca, adorei o conto. MUITO bom.
É também o tipo de conto que eu fico pensando “Cacete, deve ter alguma coisa aí que eu não entendi. Alguma mensagem subliminar que passou batida…”
Bem, sei lá.
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Em geral quando o leitor pensa que há alguma mensagem subliminar e elabora mil teorias, não há porra nenhuma.
E quando a gente coloca, normalmente ninguém percebe.
T.
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Pois é.
E em geral, quando eu fico pensando que tem alguma mensagem subliminar, é quando o conto é malucão assim. Por exemplo, por quê vermes e não larvas (se é que tem diferença)? Por que “It’s Now or Never” e não “Love Me Tender”?
É aquela velha história das aulas chatas de literatura, em que o professor destrincha todo um texto, esmiuçando tudo possível e achando altas influências barrocas. Aí você para e pensa: “Porra, é claro que o maluco não pensou em tudo isso quando escreveu o texto. Foi só a cabeça louca dele que pensou nessas coisas, sem quaisquer influências barrocas, e esse professor fica aí inventando teorias doidas só pra complicar a nossa vida”.
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Normalmente é isso o que acontece. As vezes tem um subtexto mesmo, mas em geral o que eu faço é para ME contentar. Prefiro muito mais que os outros interpretem do seu jeito do que ficar quebrando a cabeça para entender o que diabos eu quis dizer.
Tem uma historia sobreo David Lynch que – confesso – não sei se é verdade contando que um reporter expôs uma teoria bizarra sobre alguma coisa que ele tinha feito e perguntou “É isso mesmo?” e ele “Não. Só fiz assim porque achei divertido”.
Isso resume tudo. Em geral, a gente faz porque é divertido.
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Por isso que eu gosto desse cara!
eu ri mto tbm, pq achei o diálogo bem no estilo do Douglas Adams, mas com o toque do cabeça-pelada!
As maiores obras surgiram pq o autor se divertia mto fazendo isso.
DON’T PANIC! BE HAPPY!
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[...] lado B da banda Pearl Jam. Uma amostra da minha eterna incapacidade de bolar títulos originais (Upstatic – que, aliás, é uma palavra que não existe – foi a [...]
Eles estão entre nozes…
No meio do pão com mortadela tambem.
É preciso conferir a data de validade dos miolos de boi.
Ou sair mesmo de qualquer vidinha de merda que por acaso estamos vivendo.
Cheers!
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“bem, este estilo de conto, baseia-se em que tipo de escola literária? barroca, arcade, romantista ou ocudamãe???”
Cara, apesar deu escrever concordo com o Luiz, é como um compositor, sua música pode ser baseada no que ele quizer.
Gostei pacas do Conto, como o fim ficou a imaginação de kda um, imagino que ela recebera a mesma informação do rádio e acreditou!!!
quem concorda?
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